A cidade impossível: em Chongqing, até o GPS chinês se perde entre pontes, viadutos e vários níveis
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Uma cidade cercada por dois grandes rios, espalhada por encostas e sem pontes para ligar suas margens. Até poucas décadas atrás, essa era a realidade de Chongqing. Para atravessar de um lado a outro, os moradores dependiam de balsas e viagens que podiam levar horas.
A primeira grande transformação veio nos anos 1980, com a construção de um bondinho aéreo que reduziu a travessia para menos de quatro minutos. Durante uma década, ele foi a principal ligação entre os dois lados da cidade.
Mas a mudança mais radical aconteceu em 1997, quando Chongqing passou por uma rápida expansão urbana e se transformou em uma metrópole.
O resultado foi uma explosão na construção de pontes. A cidade passou de nenhuma ponte para cerca de 20 mil estruturas do tipo. Hoje, 105 delas são classificadas como superpontes, e seis em cada dez moradores precisam atravessar pelo menos duas pontes diariamente.
Para o funcionário público Liao Kai, a transformação é visível. "Vinte anos atrás, eu nunca tinha vindo aqui. Já tinha visto fotos, mas naquela época, os prédios eram bem mais baixos, então a cidade não parecia tão grandiosa quanto hoje".
A cidade impossível: em Chongqing, até o GPS se perde em meio a pontes, viadutos e vários níveis. — Foto: Reprodução/TV Globo
O crescimento acelerado exigiu soluções cada vez mais complexas para a mobilidade. Um dos símbolos dessa nova fase é o chamado Viaduto do Dragão Enrolado, um enorme entroncamento viário com cinco níveis, 20 rampas e oito direções diferentes. O ponto mais alto chega a 37 metros de altura.
Nem mesmo os sistemas de navegação conseguem lidar perfeitamente com a estrutura. Durante um teste feito pelo Fantástico, o sistema errou o caminho dentro do complexo viário.
Segundo o professor e reitor Chen Jian, da Universidade Jiaotong de Chongqing, o problema ocorre porque o sistema de navegação nem sempre consegue identificar em qual nível do viaduto o veículo está circulando.
A cidade impossível: em Chongqing, até o GPS se perde em meio a pontes, viadutos e vários níveis. — Foto: Reprodução/TV Globo
Além da ampliação da infraestrutura, a cidade investe em tecnologia para reduzir congestionamentos.
"Por meio dos semáforos, se houver apenas quatro faixas adiante, fazemos um controle preciso e refinado do cruzamento. Tudo isso é aplicação do ITS — Sistema Inteligente de Transporte", afirma Chen Jian.
Para uma cidade de 30 milhões de habitantes, porém, apenas ampliar as vias não seria suficiente. Uma das principais apostas foi a construção de uma extensa rede de monotrilhos, adaptada ao relevo íngreme da região.
"A principal vantagem do monotrilho, em comparação com o metrô, é que ele permite raios de curva menores e tem mais capacidade de subir em encostas. Além disso, o custo de construção é mais baixo que o do metrô", explica Chen Jian.
Para vencer os desníveis da cidade, Chongqing também recorre a grandes escadas rolantes. Em uma delas, o trajeto até uma estação de transporte levou dois minutos e 22 segundos.
A prioridade dada ao transporte coletivo é tão grande que, em alguns casos, os edifícios precisaram se adaptar ao traçado das linhas. Em um dos exemplos mostrados na reportagem, um monotrilho atravessa um prédio construído em conjunto com a infraestrutura ferroviária.
O impacto das transformações urbanas vai além da mobilidade. Chongqing também vive um processo de retorno de moradores que passaram anos no exterior. É o caso da educadora Zhang Qian, conhecida como Sissi, que voltou para sua cidade natal depois de uma década vivendo em Paris.
"A cidade mudou especialmente nos últimos dez anos. Você via muito mais desses trabalhadores que carregam coisas nos ombros", afirma. Ela diz que a cidade se tornou mais moderna e segura.
"Eu acho que a China é mais segura que qualquer lugar no mundo. Temos segurança em toda parte, quando você vai ao metrô ou às estações..."
De volta a Chongqing, Sissi hoje trabalha na área de educação. "Eu sou uma educadora agora. Então tudo que eu vivenciei e aprendi lá fora eu quero misturar aqui."
O Fantástico mostra que ela faz parte de um movimento mais amplo de retorno de estudantes chineses que buscaram formação no exterior e decidiram voltar ao país. "Durante décadas, a China viu um êxodo enorme de talentos. Mas hoje a maioria dos estudantes que saem, voltam."
Chongqing é uma cidade que também preserva suas tradições. — Foto: Reprodução/TV Globo
O reencontro com Chongqing acontece ao redor de uma das tradições locais mais populares: o hot pot, uma sopa compartilhada servida em panela fervente no centro da mesa.
O prato surgiu entre trabalhadores portuários que precisavam de refeições nutritivas e utilizavam cortes mais baratos de carne preparados com grandes quantidades de pimenta.
Hoje, os restaurantes mantêm ingredientes tradicionais, como intestino de pato, gengiva de boi e cérebro de porco.
Para Sissi, a gastronomia também ajuda a explicar por que decidiu voltar. "Nós temos comida boa aqui!"
A história de Chongqing ajuda a explicar a transformação vivida por cidades do interior da China nas últimas décadas. Um processo que mudou a paisagem, a mobilidade e a dinâmica econômica da região e que, para muitos moradores, reforça a percepção de que o futuro está agora mais próximo de casa.
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FONTE ORIGINAL DA NOTCIA:
https://g1.globo.com/fantastico/noticia/2026/08/23/a-cidade-impossivel-em-chongqing-ate-o-gps-deles-se-perde-entre-pontes-viadutos-e-varios-niveis.ghtml